segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

O Rafa


Era já perto da meia-noite do dia 10 de Fevereiro. Estava em Beja com algumas das minhas pessoas e estávamos a ler e ouvir poesia má. Como aquilo já se alongava um bocado sugeri fazermos um concurso e perceber quem ganhava, se a leitura de um daqueles poemas se a carta da Maga ao Rocamadour no livro Rayuela, de Cortázar.

"Porque o mundo não me importa se não tiver forças para continuar a escolher algo verdadeiro."

Esperávamos pelo nascimento do Rafa há já quase 30 horas, numa jornada que mistura amor, empatia, entusiasmo e uma violenta expectativa que tem em si amor, empatia e entusiasmo. Pela mãe que o é pela primeira vez e que toma decisões fora do seu corpo para que o Rafa venha lindo e saudável, pelo pai que pede as mesmas dores e que a forma de o fazer é não desligar do momento durante as mesmas horas que a mãe. Então um de nós diz que, quando a Maga acabar a carta ao Rocamadour, o Rafa já terá nascido. E então leio lentamente, as duas páginas da mãe a um filho, e, mesmo no fim, ao chegar às últimas três linhas, toca o telefone, e era a minha mãe. Mas eu ainda acabo de ler:

"Rocamadour, e escrevo-te esta carta sem saber bem porquê, porque talvez esteja enganada, talvez seja má ou esteja doente ou seja um bocadinho idiota, não muito, só um pouco, mas isso é terrível, só a ideia dá-me cólicas, tenho os dedos dos pés completamente encolhidos, vou rebentar os sapatos se não os descalçar e gosto tanto de ti, nariz de açúcar, minha árvore pequenina, meu a cavalinho de pau."

E o Rafa tinha nascido e há algo em nós que finalmente se desfaz, um medo e uma ansiedade escondida que de repente já não existem, porque o Rafa nasceu e nós não ficámos só maiores, ficámos maiores entre nós, porque o Rafa não é só o Rafa, é algo de comum entre mim, o meu irmão, a Julie, os avós, os primos, os tios e também os amigos que na sala festejam como se o fim do medo e o início da vida toda fosse de todos nós. E se calhar a vida é mesmo isto, a benção do nascimento de uma criança é ficarmos não maiores, mas maiores dentro desta teia nossa para que o Rafa cresça sem nunca conhecer outra realidade que não esta. Eu ganhei um sobrinho e uma irmã, e ganhei mais uma vez um irmão. Agora é deixarmos o Rafa ir deixando de ser nosso. Sem que nunca lhe falte rede.

Bem vindo, minha árvore pequenina, meu cavalinho de pau. Que a tua vida seja para ti o que foi o teu dia de nascimento, para nós. Não vais precisar de mais nada.





terça-feira, 9 de janeiro de 2018

a minha mãe faz anos outra vez, acontece normalmente por esta altura (desta vez calhou em 2018)

por isso recupero o post que tenho actualizado nos últimos seis anos e acrescento mais umas coisinhas que isto é só mais um ano:

- gosta dos animais todos do mundo, até tinha um pombo asqueroso do lado de fora da janela a olhar para ela a cozinhar, todo despenteado. entretanto ou faleceu e foi para o céu dos pombinhos asquerosos ou fartou-se dos monstros do demónios que habitam lá na cozinha.
- desde que há gatos em minha casa passou a visitar-me mais, quando há coisas partidas só se preocupa com os gatos que se podem cortar, lava-me a loiça, vê filmes com os gatos, limpa a casa toda, compra-lhes comida. se os gatos soubessem usar o facebook e o blogger escreviam-lhe um post bem mais fofo que este (isto só fez sentido até 2015, nunca mais cá veio).
- é pirosa pirosa pirosa que até faz aflição mas é a mais gira de todas, a mais gira, a mais gira, a mais gira, até quando pinta as unhas de cor-de-rosa com brilhantes, ela que não me oiça dizer isto (no post de 2014 a formulação era vermelho com brilhantes por isso este ano a piroseira sofreu um upgrade) (em 2017 pintou de preto. tirem as vossas conclusões)
- gosta das crianças todas, querem todas morar com ela no quarto dos brinquedos se ela fechar os gatos maus, é a titi mais fixe
- é muito generosa com toda a gente, com ela nunca me falta nada e vou tendo muito mais do que poderia precisar.
- comove-se com qualquer disparate sobretudo com poesia que fale de pessoas que morreram e de aniversários e nós gozamos com ela como se não houvesse amanhã
- acha que eu nunca faço disparates e apoia todos os disparates que eu faço
- diz que é disléxica para justificar o falar tão mal inglês. nós pedimos-lhe para ir tirar um curso mas ela não pode faltar ao ginásio
- toma conta de todas as pessoas e nunca se queixa. de todas as pessoas. nunca se queixa.
- lê muito mais do que eu e não percebe como é possível que ainda haja mundo onde há quem não seja leitor
- quando estou irritada com alguma coisa ela percebe logo porquê e irrita-se o dobro
- oferece-me sempre coisas douradas e eu adoro
- aceita as minhas escolhas todas e acha-as as mais espertas
- inveja as minhas andorinhas exactamente como as minhas crianças invejam. (em 2018 acho que ela não se lembra das andorinhas, agora vai-se lembrar)
- goza com todas as coisas que a preocupam e quem a conhece topa-a logo
- mas sabe sempre superar todos os males que lhe acontecem, ri-se deles, e isso ajuda-a muito. a ela ninguém a manda abaixo.
- é uma mãe diferente das outras porque quando chega a minha casa não se põe a limpar tudo, muda só umas coisas de sítio e diz que está tudo lindo e piroso e impecável, e está mesmo. só limpa o que pertencer aos gatos, claro (em 2018 já não). e só lava loiça se tiver luvas.
- tirou uns vinte doutoramentos mas não sabe partilhar uma página no facebook
- já passou mais um ano e continua sem saber partilhar uma página no facebook
- já passaram mais três e nada.
- agora que o post vai no terceiro ano lá sabe mais ou menos partilhar uma página no facebook mas se a ajudarmos ela prefere (não, cinco anos continua tudo igual, este tópico foi um engodo)
- está cada vez mais insistente com cenas, com todas as cenas, qualquer cena.
- sempre que há algum problema na família ela chega-se à frente comigo e eu nunca me chego à frente sozinha
- finge que não sabe fazer as receitas que invento para ser eu a fazer
- toda a gente do mundo gosta dela. toda a gente, qualquer pessoa. toda a gente. sem excepção.
- tem um gato que acha que é um gato mas não, é um demónio sem alma, um demónio de unhas afiadas. e está a estragar o irmão, um gatinho que já foi doce.
- eu sei que é a única e é minha mas é a melhor mãe do mundo
- passou um ano e continua a ser a melhor mãe do mundo, um bocadinho melhor ainda .
- passados dois anos ainda é, sem dúvida, a melhor mãe do mundo.
- é ainda e sempre a melhor mãe do mundo. e agora já é a melhor avó do mundo. a me-lhor.  o nosso menino ainda não nasceu e já o diz todos os dias. temos todos muita sorte. 

sábado, 25 de novembro de 2017

Todo o Mundo é um Palco

Hoje fui ao teatro ver Todo o Mundo é um Palco. Um espectáculo de Beatriz Batarda e Marco Martins, com a colaboração de Victor Hugo Pontes, para comemorar os 150 anos do Teatro da Trindade.

Passei grande parte da minha adolescência e início de idade adulta em cima de palcos. Poucas vezes foram palcos grandes e encerados, com cadeiras estofadas e um público bem comportado. Ensaiámos em corredores, casas de banho, no sotão da minha mãe, numa esplanada do café. E pisei vários tipos de palcos, todos diferentes. Só que cresci com o teatro que tinha na sua base a certeza que nada disso interessava, onde o importante era primeiro ouvirmo-nos e sabermo-nos uns aos outros, respeitarmos o palco do outro, nunca deixarmos que o outro não tenha resposta a uma deixa que deve ter resposta. Por isso as nossas peças só começava a existir depois de muitas horas de improvisação, de toque, de concentração, de diálogo. Depois de dias inteiros de nos entendermos como actores e pessoas no palco. Depois de deixarmos alguns segredos de lado. Esse foi o teatro que eu aprendi. Depois o resultado podia ser muitas variações disso e, efectivamente, foi. 

Hoje foi esse teatro que eu vi no Teatro da Trindade. Foi uma perfeita coreografia da vida com os actores. É que nem podemos só dizer que são todas as histórias reais e que os actores fazem de si próprios, ou que a grande maioria não é actor. É que nesta peça os actores estão um passo mais à frente. Porque os actores representam-se uns aos outros, misturam-se, mimetizam-se. E escutam-se. E dão espaço ao outro para existir. E tudo dentro de uma encenação que nunca falha, que sabe mudar as cenas com registos violentamente diferentes, e que coreografa o público levando-o a dançar ao som de um jogo, como diz o Miguel Borges a fazer de si próprio, o jogo de que o teatro é feito. E o que é em tudo maior é que a peça é teatro sobre o real e não há forma de representar o real sem ser existindo. E existir em palco com uma sala cheia é estarmos sempre à beira do abismo. E não ter medo de cair. [Fiz há uns anos um curso com o Miguel Borges de improvisação em que ele nos ensinou que se num exercício de improvisação alguém vier para nós com uma faca para nos matar não podemos acreditar que não o vai fazer. Temos de o convencer a não o fazer, a todo o custo. Para salvar a nossa vida.] E aqui, neste palco, ninguém cai.

A vida real maltrata-nos nesta peça. E é a mesma vida real que na mesma peça nos salva. Sem que para isso haja necessidade de explicar onde está a fronteira entre uma e outra. E em pano de fundo há uma homenagem à cidade de Lisboa - no início da peça estão abertas atrás no palco umas janelas de onde se vê a cidade. É a nossa cidade, imperfeita, heterogénea, de ruas estreitas, de calçada escorregadia, mas a cidade da promessa. A cidade onde se chega ao fim da Europa e ao início do Oceano. E são essas histórias que se contam. E nessa infinita e hilariante coreografia o que nos fica é que cada um faz os gestos que quiser, mas que se soubermos e quisermos o nosso gesto pode ir no mesmo sentido do gesto do outro, sem nunca perder a sua individualidade. 

O que interessa é, mais do que saber seguir sonhos nossos, saber traduzir os sonhos dos outros. 

E ir aprendendo todas as línguas do mundo. Para que o mundo nos chegue o mais perto possível. 

Até 10 de Dezembro, no Teatro da Trindade.

Criação: Arena Ensemble
Encenação: Beatriz Batarda Marco Martins
Colaboração: Victor Hugo Pontes
Com: Carolina AmaralMiguel BorgesRomeu Runa
Aline CaldasAntónio Alberto FigueiraAntónio VasconcelosBenmerja AbdelkaderDewis CaldasHeitham KhatibHélder PinaJean Bruno MassyJorge Pedrosa de OliveiraLaure Cohen-SolalLucas  Sadalla, Malena Camargo CaldasMarco PedrosaMick MengucciMoin AhamedPascoal SilvaSafira Robens
Espaço Cénico: Fernando Ribeiro
Desenho de Luz: Nuno Meira
Sonoplastia: Sérgio Milhano
Fotografia: João Tuna
Produção: Teatro da Trindade / Fundação INATEL



segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Lisboa, a cidade-amor da minha vida (de quando temos de falar de sair de Lisboa)

Moro numa casa inacabada
Feita de terra molhada
Com o céu às cavalitas
Entra, mas desculpa a confusão;
Anda tudo pelo chão,
Não contava com visitas

Comigo mora gente tão diferente
Que às vezes, pontualmente,
Só falamos por sinais;
Cada um tem na sua bagagem
Um bilhete de passagem
Pelos pontos cardeais

Na sala, uma velha cartomante
Lê ao cavaleiro errante
Um destino vencedor;
As cartas falam de perdas e danos
Para, no correr dos panos,
Encontrar o seu amor

Ao fundo, dorme um soldado sisudo
Com umas botas de faz-tudo
E uma paixão de aluguer;
O bêbado que está no quarto ao lado
Chora sempre em tom de fado
O amor de uma mulher

Aquela que tem o corpo na esquina
Diz que também foi menina
Há-de um dia ser feliz
O homem que a usou pelos quintais,
Como é norma entre iguais,
Compreende o que ela diz

Em cima fica o quarto dos amantes,
Dos poetas, viajantes
E dos loucos sem lugar;
Pintaram um baloiço na janela
Com a luz de uma aguarela
Para a lua baloiçar

Assim somos vizinhos de outras crenças,
De outros livros e sentenças
Outras formas de oração;
Mas quando a noite traz os seus momentos
Escapa destes aposentos
Um bater de coração

Revela-se a verdade nua e crua:
Chove mais do que na rua
Trago o fato ensopado
Aqui qualquer um é vagabundo,
Esta casa é todo o mundo
Falta só pôr o telhado





Letra: João Monge Música: Manuel Paulo Sérgio Godinho, Camané - VOZ Joana Sousa, Inês Sousa- COROS Daniela de Brito - Violoncelo Hugo Diogo - Viola Valentim I. - Violino Paulo Gaspar - Clarinete, Cl. baixo Manuel Paulo - Piano el., sint. Iuri Daniel - Contrabaixo Alexandre Frazão - Bateria André Rocha - Percussão

terça-feira, 31 de março de 2015

da maravilha

este é um filme que contraria todos os sítios onde parece querer viver. o campo rude, o não espaço, a casa isolada são o cenário fechado onde vive a família de Gelsomina, de 12 anos, filha mais velha de Wolfgang, uma adolescente que procura a beleza própria da idade mas que prefere marcar convictamente o seu lugar de chefe da família e do negócio (são uma família de apicultores). Gelsomina é a voz da geração que cresce por onde houver espaço para crescer, nesse já referido não espaço mas num mundo que, apesar do isolamento (ou por causa dele) convive com a televisão que a determinada altura da história anuncia riqueza e uma beleza que nunca é vista como impossível.

e é um filme de silêncios. nada é dito mesmo quando nos parece que nos está tudo quase a ser dito. há sempre o espaço de uma fala que não existe mas que parece indiscutível. até há espaço para o amor entre tantas pessoas que não partilham a mesma língua.

não há artificialidade nas representações o que leva a que não haja distância com o público. aquilo é real, aconteceu assim, naquele espaço que não sabemos onde é e num tempo indistinto.

Gelsomina tem um único sorriso, no fim do filme, que conta a sua história toda. é a porta-voz do silêncio, da família. é a que sabe que "há coisas que não se pagam". a que sempre quis mesmo era ter um camelo. a que guarda o brilho do gancho no cabelo com o cuidado com que toca nas abelhas, sem luvas.

um filme que de tão belo vai para além do sítio que lhe pertence. e o sítio que ele inventa nunca esteve em nenhuma parte.


sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

a minha mãe faz anos outra vez, acontece normalmente por esta altura (desta vez calhou em 2015)

por isso recupero o post que tenho actualizado nos últimos dois anos e acrescento mais umas coisinhas que isto é só mais um ano:

- gosta dos animais todos do mundo, até tinha um pombo asqueroso do lado de fora da janela a olhar para ela a cozinhar, todo despenteado. entretanto ou faleceu e foi para o céu dos pombinhos asquerosos ou fartou-se dos monstros do demónios que habitam lá na cozinha.
- desde que há gatos em minha casa passou a visitar-me mais, quando há coisas partidas só se preocupa com os gatos que se podem cortar, lava-me a loiça, vê filmes com os gatos, limpa a casa toda, compra-lhes comida. se os gatos soubessem usar o facebook e o blogger escreviam-lhe um post bem mais fofo que este.
- é pirosa pirosa pirosa que até faz aflição mas é a mais gira de todas, a mais gira, a mais gira, a mais gira, até quando pinta as unhas de cor-de-rosa com brilhantes, ela que não me oiça dizer isto (no post de 2014 a formulação era vermelho com brilhantes por isso este ano a piroseira sofreu um upgrade)
- gosta das crianças todas, querem todas morar com ela no quarto dos brinquedos se ela fechar os gatos maus, é a titi mais fixe
- é muito generosa com toda a gente, com ela nunca me falta nada e vou tendo muito mais do que poderia precisar.
- comove-se com qualquer disparate sobretudo com poesia que fale de pessoas que morreram e de aniversários e nós gozamos com ela como se não houvesse amanhã
- acha que eu nunca faço disparates e apoia todos os disparates que eu faço
- diz que é disléxica para justificar o falar tão mal inglês
- toma conta de todas as pessoas e nunca se queixa. de todas as pessoas. nunca se queixa.
- lê muito mais do que eu e não percebe como é possível que ainda haja mundo onde há quem não seja leitor
- quando estou irritada com alguma coisa ela percebe logo porquê e irrita-se o dobro
- oferece-me sempre coisas douradas e eu adoro
- aceita as minhas escolhas todas e acha-as as mais espertas
- inveja as minhas andorinhas exactamente como as minhas crianças invejam
- goza com todas as coisas que a preocupam e quem a conhece topa-a logo
- é uma mãe diferente das outras porque quando chega a minha casa não se põe a limpar tudo, muda só umas coisas de sítio e diz que está tudo lindo e piroso e impecável, e está mesmo. só limpa o que pertencer aos gatos, claro.
- tirou uns vinte doutoramentos mas não sabe partilhar uma página no facebook
- já passou mais um ano e continua sem saber partilhar uma página no facebook
- agora que o post vai no terceiro ano lá sabe mais ou menos partilhar uma página no facebook mas se a ajudarmos ela prefere
- sempre que há algum problema na família ela chega-se à frente comigo e eu nunca me chego à frente sozinha
- finge que não sabe fazer as receitas que invento para ser eu a fazer
- toda a gente do mundo gosta dela. toda a gente, qualquer pessoa. toda a gente. sem excepção.
- eu sei que é a única e é minha mas é a melhor mãe do mundo
- passou um ano e continua a ser a melhor mãe do mundo, um bocadinho melhor ainda .
- passados dois anos ainda é, sem dúvida, a melhor mãe do mundo.





sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

o meu pai

hoje o meu querido pai faz anos. nestas alturas é costume publicar uma foto do meu pai e dar os parabens & etc. mas eu não tenho fotos do meu pai aqui, nem uma. claro que podia pôr outras fotos. dos livros que me vai dando e que são bombas que não param de explodir porque, diz ele, "é alérgico ao pó", da caixa de desejos que me ofereceu há uns anos no Natal onde dizia que eu podia pôr todas as listas de tudo o que eu quisesse sempre, o envelope com lã lá dentro que se chama "miminho para dias assim assim", as plantas do quintal, o manjericão que nunca cresce na minha casa, só na dele, a casa que eu adoro mais que tudo e que foi minha desde o minuto em que ficou livre porque se era filha dele mais ninguém havia de morar ali, o cheiro a iscas do Cid e o cheiro a caril do Sebastião, o auto-retrato que ele pintou e que inaugurou as paredes da minha casa.
parabéns pai, e até já.

domingo, 7 de dezembro de 2014

hoje

faz hoje três anos que entrei no espaço em que era absolutamente impossível não pensar muito em tudo o que parecia poder adiar para sempre. três anos depois já não me apetece continuar a pensar. demorei três anos a perceber que aquilo que decidi que ia ser e fazer a partir daquele dia só o poderia alcançar intuitivamente. hoje tenho a tranquilidade certa, o quotidiano certo e sei aproveitar o frio e as esplanadas e a comida japonesa. não teria chegado aqui se não tivesse passado 22 dias ali, a pensar, isso é verdade. mas não teria chegado aqui só porque tinha percebido que este era o caminho certo. foi necessário fazê-lo com convicção e amor. ficam as memórias nesta fotografia de dezenas de visitas e do sol, nos dias em que me deixavam fugir para vir viver o frio gelado de Dezembro, durante os mais bonitos minutos de um dia inteiro.

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

os gatos do palácio

cheguei à Foz do Lizandro e já sabia que andavam por ali três gatos bebés, que eu acreditava que nunca iria encontrar. fomos procurá-los ao buraco onde a mãe os tinha deixado e lá estavam eles. dois gatos e uma gata. a gata veio a correr para o nosso colo e durante dois dias não saiu de lá. hoje essa gata é um gato e chama-se cesariny. depois percebi que não a podia deixar ali nem os irmãos. o cesariny pôs a pata na água que lhe tínhamos dado e tocou na terra. ficou aflito a limpar aquele bocado tão mínimo de lama. comecei a imaginar a lama, a chuva, o frio da Ericeira. e pronto, fomos buscar o camaroeiro e vieram todos para o meu palácio, os três. a gata ficou com o nome clarice, o outro gato, cortázar.

nos primeiros dias deixaram-me a casa num caos. estou habituada a ter a casa sempre da mesma forma, doce e sossegada. com eles veio o caos, cheiros, lixo. tive uma conversa com eles e achei que tínhamos de nos entender de outra forma. mudei a casa, arranjei um quarto só para eles, dividi a casa em dois e tudo se alinhou.

são três irmãos completamente diferentes uns dos outros e já lhes distingo o miar, quanto mais as manias e manifestações de amor.

a clarice é uma gatinha preta, está a ficar mais pequena que os irmãos. tem bigodes e sobrancelhas anormalmente grandes e brancas. adora caçar coisas das paredes, coisas que não estão lá que só ela vê. descobriu que o modem, que está debaixo do sofá, é o sítio mais quente da casa e ensinou aos irmãos. tem uns olhos irresistíveis, inteligentes e tranquilos. está sempre à luta com os irmãos, perde sempre porque eles são mais fortes, mas nunca desiste, muitas vezes já os pôs a correr dali para fora.

o cortázar é branco, com muito pelo e olhos azuis. quando o trouxe disse logo que não ia ficar com esse (eu ia ficar só com dois) porque ele se assanhava a estranhos. é também chamado, por isso, de "o enjeitado". mas com o tempo percebi que ele era só mais discreto que os outros, cioso do seu espaço. pede mimo de forma discreta e aguenta pouco ao colo. só vem para o meu colo quando os irmãos não estão, como se quisesse pouca atenção mas só para ele. abraça os irmãos a dormir e puxa-os mais para ele, isto tudo sem abrir os olhos. aprendeu a ronronar ao meu colo mas só o faz às vezes, a maior parte das vezes quando adormece encostado a mim. nunca mais se assanhou a ninguém.

o cesariny é a menina que descia a colina para vir para o nosso colo. é o mais inteligente, o que aprende mais depressa, o que ensina os irmãos toda a espécie de tropelias. é ele que consegue sempre entrar no meu quarto sem eu saber como, que sabe subir pelas calças para o meu colo, que ronrona no segundo em que olha para mim, que passa todo o tempo em que eu tomo banho a tentar entrar na banheira e já começou a ensinar os irmãos a fazer o mesmo. foi o primeiro a ficar encantado com o sol que entra em casa e brinca com o sol no chão da cozinha.

todos eles fazem parte da minha casa duas semanas depois. conheço-lhes os detalhes, as diferenças, sei ver quando estão felizes e sei quando estão tristes (que nesta idade é só falta de mimo). respondem todos juntos ao "anda cá" e quando saio do quarto de manhã parece sempre que não me vêem há meses. pertencem ao meu dia de forma absoluta, são família, orgulho e amor. fazem-me rir todos os dias e surpreendem todos os dias com a forma das expressões que fazem. surpreedem-me sobretudo com a forma como se encaixaram no meu quotidiano e como não atrapalharam mais este meu vício de solidão. mas a verdade é que são os meus gatos. os três. eles escolheram-me a mim e eu a eles. tive muita sorte.

este texto é dedicado à sophia, à vera, ao zé e à minha mãe, que me foram ensinando (perante o meu cepticismo) que não há amor como o deles, nem palavras suficientes para o descrever.









segunda-feira, 21 de julho de 2014

a tão poucos dias do dia da Lídia

as primeiras lembranças que tenho tuas são das nossas noites no sótão, todas juntas, a dormirmos e a rir como se não houvesse mais do que aquilo. eras bruta e assertiva, como ainda és, e nós apaixonámo-nos por essa tua característica peculiar. estavas sempre pronta para ser alegre. tudo em ti era uma bomba e eu também era assim e o mais belo foi que nunca entrámos em conflito porque explodíamos pelas mesmas coisas ao mesmo tempo. vimos muitas vezes o nascer do sol, ensinaste-me a maquilhar-me, a agir sempre bem sem deixar de arriscar, a divertir-me nas alturas mais improváveis. o que melhor lembro de ti é a forma como sempre me defendeste, quando alguém se atrevia a tratar-me mal ou quando havia a sombra de que alguém me ia tratar mal. ficavas uma leoa de garras de fora e dissemos muitos impropérios catárticos contra muitas dessas pessoas.

somos completamente diferentes. vais casar e eu nunca faria um casamento como o teu e no entanto estou apaixonada por esse dia, porque é teu. comove-me cada momento deste casamento (e que são tantos) e enche-me a mim e aos nossos (acho que posso falar por eles) de alegria podermos participar por dentro desse dia. estou em contagem decrescente para o teu dia. e prometo que estarei sempre com a mão por baixo para que tudo seja perfeito como imaginaste. e prometo fazer isso todos os dias depois desse, porque és amiga irmã e das poucas certezas que consigo ter sem esforço. é assim, fazes parte dessa mesa e desse copo de vinho branco sempre, naturalmente, porque não existe outra forma de mim onde tu não estejas.

tem um dia feliz, amiga. serei sempre a tua leoa e a tua catarse como sempre foste a minha. gosto de ti.




terça-feira, 15 de julho de 2014

há pouco espaço para tanto que cabe numa semana e numa pessoa

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Locke

há filmes que são bons, este é um filme bom. mas a qualidade deste filme, além da maravilhosa interpretação do único actor Tom Hardy (que também trazia para casa se pudesse e punha-o no meu sofá a falar e a fazer-me massagens), é o facto de ser um filme que nós nunca vimos. todo passado em tempo real numa auto-estrada, dentro de um carro, vemos em 1h30 uma luta incessante do certo e do errado, do bem e do mal, e de como não há categorias estanques nem sequer categorias fechadas que possam combater a dor e a incredibilidade do desgosto humano. um exercício de amor, amizade, resistência e convicção, Locke diz muito mais do que possa parecer. que as acções têm consequências mas muitas vezes não são as consequências que imaginamos, que o amor muitas vezes é o contrário da razão e do pecado, que o perdão tem caminhos próprios e ínvios. que o nosso crescimento e aquilo que nos marca negativamente é o que vamos tentar não repetir mesmo que isso abra fendas que não têm solução no que queremos imaculado.
este filme traz questões universais e emoções ansiosas e irreversíveis. tudo dentro de um carro a 140km/h.

TRAILER

quarta-feira, 28 de maio de 2014

o mercado da ribeira e o outro

a Time Out ocupou o mercado da ribeira. metade do mercado da ribeira para ser exacta. diz-se que se quer "reabilitar" os mercados de lisboa, já se tinha feito o mesmo com o mercado de campo de ourique, ao qual ainda não fui. na verdade não tinha grande interesse em ir também a este mas a verdade é que trabalho colada a ele (o interminável som das obras, tão agradável face ao som dos restaurantes), vivo aqui perto e é aqui que saio à noite e ontem fui lá fotografar e filmar aquilo, para vos mostrar. viver sempre aqui faz com que conheça na perfeição o cais do sodré, a praça de são luís, a praça de são paulo, os restaurantes que convivem com a rua cor de rosa, as prostitutas que convivem com os designers. o cais do sodré vive por camadas, é a sua característica mais fascinante. nenhuma nova camada (e tem havido tantas) se sobrepõe a outra que já lá estava, convivem.
este amor ao bairro não me permite encontrar justificação no "novo" mercado da ribeira. isto porque o mercado é ainda um sítio onde se encontram pessoas amigas, que nos escolhem a melhor fruta ou nos guardam beldroegas quando chegam, que nos guardam o pão, onde dizem em segredo que peixe é mais fresco. onde nos cortam a rama do alho francês para não pagarmos uma parte do legume que não usamos para cozinhar. e o que a Time Out fez não foi reabilitar este belo mercado, foi criar o que só se pode descrever como um topo de centro comercial, com comida cara, mesas corridas, filas, cheiro a fritos e um barulho ensurdecedor (como se pode ver/ouvir no vídeo em baixo). claro que as pessoas gostam, vão, enchem as filas porque finalmente, grande sorte, podem comer um hamburguer honorato e um santini quase sem mexer os pezinhos.
estamos a transformar esta cidade numa cidade tipo, estilizada, sem variações. não fossem as nossas amigas do mercado resistentes e nem teríamos camadas. o que foi reabilitado foi o espírito empresarial e o lucro de empresas internacionais. ao circularmos por aqui vemos um comércio tradicional afectado, sem que para ele se fale de reabilitação. em troco de nada, zero qualidade, zero beleza, e, claro, zero espírito crítico de alguns consumidores. só lucro e um topo de centro comercial feito para encher olhos pouco exigentes e esvaziar os bolsos dos desatentos.
por todo o mercado da ribeira as nossas pessoas reviram os olhos. não estão satisfeitas com o que lhes aconteceu, à casa delas. e lisboa também não deveria estar. e nós também não. por mim continuarei a beber o meu café no Tati e a comer as favas do Cid. e a comprar as frutas e os legumes feios do meu mercado da ribeira.



terça-feira, 20 de maio de 2014

onde andei estas últimas semanas

foi no dia em que li o último livro. em que a casa começou a descompor-se, sem exigências. em que me esqueci pela primeira vez de dar de comer ao boi. o dia em que os e-mails urgentes tinham estrelas amarelas insistentes, rigorosas mas esquecidas. o dia em que deixei de perceber o desenrolar das horas e dos dias e de entender que a cadência do tempo não pode estar ao serviço de si própria, imparável, mas sim de uma vida orgânica. foi isso, na verdade, a minha vida, de repente e pela primeira vez, não era orgânica. e o tempo era monótono e perigoso.

quando isto começa a visão desaparece. o cérebro lança avisos de que vai desligar. o meu, em especial, avisa-me, antes de desligar, das minha próprias limitações. pede-me paciência, a palavra talvez mais ouvida nestes últimos tempos. paciência, tens de ter paciência. tens de esperar porque nada será linear. eu que me habituei a não levar um problema para o dia seguinte tive agora de nomear os problemas todos, um a um. devagar, sem pressa. com paciência. e começar a verbalizar. a pensar nos poemas, nas músicas, nas conversas de beira-rio que teriam esta forma. quando o cansaço era forte descansava, desligava. quando a força regressava apaixonava-me por alguém e pedia conforto.

o pior de tudo foi mesmo sentir que para ter paciência e esperar a recuperação do meu cérebro eu não podia ser eu. tinha de ser um eu [linha]. ou outro eu, mais honesto mas sobretudo mais profundo. mais conhecedor. mas tive de largar projectos novos e antigos, largar livros, largar pensamento crítico, largar tudo o que cansasse o cérebro que já estava desligado depois de me ter avisado. eu não deixei de ser eu, transformei-me num eu mais aflito e duro, mais carne. e nunca estaria a subir degraus devagar se não tivesse conhecido esse outro lado. se não me tivesse permitido descansar.

sinto falta de mim, todos os dias. da dolência de estar sempre no sítio certo. da conversa começar com “como estás?” e não com “estás melhor?”. no entanto não trocava esta batalha pelas outras que tive estes anos. porque foi a primeira vez em que desliguei o cérebro e deixei ligados só os sentidos. vivo muito, porque há coisas que não mudam. mas não vivo depressa. por outro lado esta é a primeira semana em que não vivo maquinalmente. também não vivo com pressa. vivo de corpo caído. vivo suspensa. pela primeira vez permiti-me a espera. a paciência. permiti que deixassem a mão por baixo.

escrevo isto publicamente porque não sei aprender e guardar. e aprendi que estou sozinha. que mesmo que nos metam a mão por baixo não a metem por dentro. que é nessa solidão que nos construímos para que os nossos não habitem as nossas ruínas. os nossos mesmo que vivam nas nossas ruínas não têm de o fazer. que por mais químicos, terapias, conversas e consolos não há como evitar - estamos sós com o nosso corpo e um cérebro desligado. e aí começamos a sobreviver apenas o tempo necessário de voltarmos ao sítio certo. sem desistir mas sem pressa. negociando com o cérebro um regresso que terá de ser no sítio e no momento certo. e ainda não é já.

é nesse sítio que estou e do qual decidi falar publicamente. porque de mansinho várias pessoas têm-se alojado debaixo do meu braço porque me percebem e me vêem e sentem o mesmo, silenciosamente. um cérebro que desliga, os estados depressivos, a ansiedade são ainda temas tabu. cheios de clichés onde todos sabem melhor o que fazer. digo publicamente que nada é maior que a honestidade, a clareza, essa verdade que nunca sabemos onde encontrar e que na verdade nem existe. nada é melhor que falar e aceitar que isto aconteceu mesmo. e não há como não sentir paz nessa honestidade. neste meu sítio sem máscaras nem disfarces, longe do que sou em potência, perto do que sou de verdade.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

a mãe querida escreveu este texto

(para o Woody, com amor, pelo seu 15º aniversário que ocorrerá quando passarem exatamente  9 meses e 5 dias depois de ter partido sabe-se lá para onde)


Quando os filhos deixam de precisar assim tanto de nós arranja-se um cão

Arranjei o Woody porque queria ir passear na praia com um cão a tiracolo. O Rui foi comigo buscá-lo. Do conjunto dos irmãos (que eram muitos) era o único que estava afastado  da mãe. E era o único com manchas castanhas. Parecia uma hiena.

O Woody começou por ocupar o vazio deixado pela saída paulatina dos meninos e acabou por impor uma presença insubstituível. Porque os cães, ao contrário das pessoas, não vão à sua vida, atrelam-se à nossa e não há volta a dar.

E é por isso que me tornei tão dependente do seu cheiro, dos pelos, do mau feitio para com os inimigos de estimação, da alegria quando vinham os meninos ou chegavam os donos, dos biscoitos, da papa seca, do arroz e da carne feitos dia sim, dia não, das longas esperas à janela, das férias programadas em função dele, das idas à rua, à Mariana, à avó, à tia, das corridas malucas pela praia fora, do beber água pela torneira na casa de banho, do medo do banho e da veterinária, do estar ao contrário feliz da vida, do ressonar, do barulho das patas no chão pela noite fora, do amor aos ossos e a toda a porcaria que encontrava pela rua, da paciência para os gatos e da impaciência para as crianças, do sofá só dele, do ar de arrependido quando fazia cocó na sala e lhe chamava porco, do marcar presença sentado na cozinha às sete e meia em ponto (ou oito e meia, ou seis e meia nos dias logo a seguir às mudanças da hora) para todos nós percebermos que estava na hora do seu jantar, das coceiras e das consequentes feridas que tanto trabalho davam a curar, do lugar especial na carrinha feito lorde, dos olhos tristes e do sorriso incomparável…

Não vou querer outro cão porque não vou conseguir ter outro Woody. Mas fica descansado amigo que mesmo depois de teres partido sabe-se lá para onde vais continuar sempre a ir com os donos para a praia no popó.

Até porque sem ti a praia não tem mesmo graça nenhuma.


quarta-feira, 7 de maio de 2014

tudo a assinar! não dá para fechar os olhos!


Reports of 234 kidnapped Nigerian schoolgirls have made headlines worldwide, and now a new twist has emerged — the kidnapped girls are reportedly being sold into modern slavery for as little as $121.
But there is a solution.
Experts believe that if the Nigerian Government acts immediately and uses every resource at its disposal, it can locate the girls and return them to their families.
However for this to happen they need to know that the world is watching — and waiting.Help save the 234 schoolgirls from Forced Child Marriage — tell Nigerian President Jonathan to:
  1. Act immediately on intelligence received from credible local sources;
  2. Work with neighbouring countries Cameroon and Chad as well as other nations offering assistance to mount an effective search for the girls; and
  3. Improve the protection of schools in north-eastern Nigeria so children can receive an education without risk of kidnapping, forced marriage or other abuses.
Each day the schoolgirls are held captive, the risk of them falling victim to Forced Child Marriage increases. By sending a strong, united message to Nigeria’s President today, we can help ensure his Government spares no effort until the girls are rescued and back with their families.

ASSINAR AQUI!

segunda-feira, 7 de abril de 2014

sobre o poliamor

o mundo está a mudar. é difícil aceitar mudanças sobretudo as que não entendemos. muita gente me tem perguntado pelo poliamor. explico o possível, aqui está uma explicação na primeira pessoa:


clicar na imagem 

quinta-feira, 3 de abril de 2014

Saber comer é pura informação

a quatro dias da dieta detox inventada por mim o saldo é bastante positivo. o único saldo negativo são as conversas desagradáveis com os amigos sobre exageros, fundamentalismos e aquilo a que já chamaram o meu “sacrífício”.
vamos por partes. comer bem é bom, é uma vantagem, uma postura positiva. individual e pessoal claro (se eu comer chocolate com coca-cola ao pequeno almoço ninguém tem nada a perder com isso a não ser eu), a não ser que seja uma decisão familiar, que não é o meu caso. com o passar dos anos temos vindo a ficar cada vez mais doentes e mais cedo. se não quisermos falar de doenças graves podemos falar das doenças mascaradas, as dores de cabeça e de corpo, mau humor, desconforto físico, obesidade ou desconforto com o peso que se tem, hiperactividade, ansiedade e depressão, tudo doenças normalmente atribuídas, e bem, ao “estilo de vida” na sua generalidade. a nossa alimentação relaciona-se com todos esses aspectos, podemos mudar cada um deles se entendermos melhor o que comemos. não temos de ser fundamentalistas, nem vegetarianos ou vegans, creio que tudo se relaciona com hábitos quotidianos tão simples como beber água às refeições e refrigerantes em dias excepcionais, não pôr batata na sopa, não comer sobremesas, comer carne melhor mas só duas a três vezes por semana e depois comer comida vegetariana, mais barata hoje em dia do que a carne e o peixe (que se pode comer com mais liberdade) e que se pode conseguir melhor grandes quantidades, não comer doces por sistema, comer pão escuro em vez de pão claro, ter sopa em casa.
esta entrevista é esclarecedora e deixa, a meu ver, uma grande mensagem. o que é necessário cortar em primeiro lugar na nossa alimentação são os produtos fabricados, substituindo-os por alimentos naturais. dentro do possível e sem exageros. esta regra já ajuda muito a reformular o nosso quotidiano alimentar.


ler a entrevista Saber comer é pura informação aqui.

quarta-feira, 2 de abril de 2014

das maravilhas

parabéns minha osguinha

a Eurídice faz 30 anos.
e a Eurídice arrisca-se a ser, aos 30 anos de vida solar como diz o outro, a pessoa mais fixe e amiga da face da terra. é o que dá ser Eurídice.
parabéns, maluquinha!


segunda-feira, 31 de março de 2014

descobri o Orimoto

ponham os olhos no Orimoto, um artista de sensibilidade única. esteve ontem em Lisboa e vai agora para o Alentejo a convite da Trienal do Alentejo, outro evento a decorar o trilho.

link para reportagem Orimoto.




sexta-feira, 28 de março de 2014

(devo andar mesmo aborrecida)

a propósito do regresso ao ginásio, decidi desintoxicar o corpinho e aceito bons conselhos para o efeito. falo, como imaginarão, de desintoxicação alimentar. claro, sem dúvida. óbvio. será um mês à experiência. boas ideias para não comer o Boi quando me faltar as proteínas animais?

sexta-feira, 14 de março de 2014

capicua

ela é linda, sim. mas esta música parte a casa toda. com os They're Heading West então é a cereja doce em cima do bolo. grande versão. grande letra. leiam com atenção. oiçam com os ouvidos e todos os sentidos.





Ouve o que eu te digo,
Vou-te contar um segredo,
É muito lucrativo que o mundo tenha medo,
Medo da gripe,
São mais uns medicamentos,
Vem outra estirpe reforçar os dividendos,
Medo da crise e do crime como já vimos no filme,
Medo de ti e de mim,
Medo dos tempos,
Medo que seja tarde,
medo que seja cedo e medo de assustar-me se me apontares o dedo,
Medo de cães e de insectos,
Medo da multidão,
Medo do chão e do tecto,
Medo da solidão,
Medo de andar de carro,
Medo do avião,
Medo de ficar gordo velho e sem um tostão,
Medo do olho da rua e do olhar do patrão e medo de morrer mais cedo do que a prestação,
Medo de não ser homem e de não ser jovem,
Medo dos que morrem e medo do não!
Medo de deus e medo da polícia,
Medo de não ir para o céu e medo da justiça,
Medo do escuro, do novo e do desconhecido,
Medo do caos e do povo e de ficar perdido,
Sozinho,
Sem guito e bem longe do ninho,
Medo do vinho,
Do grito e medo do vizinho,
Medo do fumo,
Do fogo,
Da água do mar,
Medo do fundo do poço,
Do louco e do ar,
Medo do medo,
Medo do medicamento,
Medo do raio,
Do trovão e do tormento,
Medo pelos meus e medo de acidentes,
Medo de judeus, negros, árabes, chineses,
Medo do “eu bem te disse”,
Medo de dizer tolice,
Medo da verdade, da cidade e do apocalipse,
O medo da bancarrota e o medo do abismo,
O medo de abrir a boca e do terrorismo.
Medo da doença,
Das agulhas e dos hospitais,
Medo de abusar,
De ser chato e de pedir demais,
De não sermos normais,
De sermos poucos,
Medo dos roubos dos outros e de sermos loucos,
Medo da rotina e da responsabilidade,
Medo de ficar para tia e medo da idade,
Com isto compro mais cremes e ponho um alarme,
Com isto passo mais cheques e adormeço tarde,
Se não tomar a pastilha,
Se não ligar à família,
Se não tiver um gorila à porta de vigília,
Compro uma arma,
Agarro a mala,
Fecho o condomínio,
Olho por cima do ombro,
defendo o meu domínio,
Protejo a propriedade que é privada e invade-me a vontade de por grade à volta da realidade, do país e da cidade,
Do meu corpo e identidade,
Da casa e da sociedade,
Família e cara-metade…
Eu tenho tanto medo…
Nós temos tanto medo…
Eu tenho tanto medo…

O medo paga a farmácia,
Aceita a vigilância,
O medo paga à máfia pela segurança,
O medo teme de tudo por isso paga o seguro,
Por isso constrói o muro e mantém a distância!
Eles têm medo de que não tenhamos medo.